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A minha carta

Posted: domingo, 20 de maio de 2012 by Luis Tertulino in Loucuras usadas: , , ,
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Esta minha carta não é dotada de palavras geniais, mas me recuso a deixá-las soarem triviais. Sim, porque acima de tudo, ela é verdadeira. Não sei para quem ela será destinada, mas ela é verdadeira, e pra mim isso é o importante e portanto já é o suficiente por hora. Ela talvez não chegue à caixas de correio. Se chegar, talvez não seja notada. Se for notada, talvez não seja lida. Se for lida, talvez seja jogada fora. Mas o importante é que ela vai ser enviada, seja como for.
Nessa carta falo que a essência humana tem sido deixada de lado. Falo que quero amar, e amar mais ainda as pessoas. Mas roubaram meus sentimentos, e eu não sei mais onde eles estão. É por isso que temo que minha carta se perca: ela fala a verdade.
Falo também do meu tempo: um tempo dúbio. As pessoas ora têm esperança, ora desacreditam no futuro. Inclusive eu. É a velha história: um ceticismo que no fundo é falso. Ou seria ao contrário?
Algumas pessoas já foram para o outro lado. Algumas ainda não, mas já se foram também. De algumas aguardo a volta, demora ela ou não. Talvez destine essa carta para elas. Direi-lhes o quanto as espero, aqui, do outro lado, ou na linha tênue.
Falo que o sono acabou. Ninguém mais consegue fechar os olhos e descansar em paz. Estão cuidando da vida dos outros - sem se importar com eles, obviamente. Estão preocupados com o próximo passo, o próximo dia que ainda nem começou, com a conta que atrasou dois dias porque não há como pagá-la, e com as que ainda virão daqui a uns anos. Os testes trazem a insônia. E aí vem as drogas para dormir e para acordar. Relógio medicamentoso.
Essa carta não enviará boas-novas. Se alguém a receber, não ficará feliz com o seu conteúdo, pois é tempo de se conseguir corpos. è tempo de salvar o próprio corpo, e depois se esconder atrás de uma colina, ou num vale profundo. As lembranças são amargas, não há porque sorrir. Mas mesmo assim estamos sorrindo. Não há porque amar. Mas peço nessa carta pelo amor. Isso é um sinal de tempos ruins. Mas ainda é uma carta - e traz em si a poesia do mundo.

"quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quem acaso repouse
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta."
Carlos Drummond de Andrade - A Carta

"Este é o quarto, o início de tudo
Através da  infância, através da juventude, me lembro de tudo
Tenha visto as noites, repletas de violência e dor
E os corpos conseguidos, os corpos conseguidos
Onde terminará? Onde terminará?
Onde terminará? Onde terminará?"
Joy Division - Day Of The Lords

A arte do silêncio

Posted: quinta-feira, 13 de outubro de 2011 by Luis Tertulino in Loucuras usadas: , , , ,
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Pra mim, a voz representa a liberdade, sério mesmo. Uma pessoa sem voz é presa de outra com voz. A linguagem deve ter sido um dos primeiros passos para a autonomia. E autonomia está diretamente relacionada com liberdade, mas isso é outra história.
Mas, como disso alguém cujo nome não lembro, "a sua liberdade termina quando a do outro começa". Acredito nessa frase e a considero bastante significativa. Todos têm, ou pelo menos deveriam ter, o direito de falar, de se expressar, de se comunicar da maneira que achar melhor. Portanto, quando um fala, o(s) outros(s) deve(m) parar para ouvir.
Mas, o que eu tenho para falar não tem a ver diretamente com liberdade, repressão, ou coisas do gênero. Estou para falar do silêncio. Sim, o silêncio, uma arte sublime de expressão tão rara nesses dias em que todos querem falar ao mesmo tempo. Parece que não há mais tempo para ouvir atentamente aos próprios pensamentos. Abrir a boca é o mais importante, mesmo que saia algo totalmente desimportante. E todo mundo querendo falar ao mesmo tempo só pode resultar em uma coisa: cacofonia.
Qual a importância do silêncio? Imagine um concerto de uma orquestra e duas pessoas decidem conversar entre si em alto tom? Adeus concerto! Atrapalharia todo o clima todo o clima da apreciação musical. Imagine em uma prova, um aluno decide conversar. É por essas e inúmeras outras situações que o silêncio é importante. E não me refiro à ausência total de som, mas sim a parar para ouvir. É aquela coisa da sua liberdade liberdade acabar quando a do outro começar. Há quem opte usar a sua liberdade de forma silenciosa; mesmo assim, devemos parar para ouvir o silêncio.

Vamos todos nos unir por um mundo livre e mais silencioso!

Democracia vs. Anarquia. (Ou não)

Posted: terça-feira, 23 de agosto de 2011 by Luis Tertulino in Loucuras usadas: , ,
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O poder feito para todos e por um conjunto certamente é tirânico. Tudo bem, são apenas divagações repentinas, sem nenhum preparo antecipado. É a tal da democracia. Até onde eu me lembro, é uma forma de governo onde se leva em consideração a vontade de todos. Ou melhor, da maioria. Mas será que vivemos realmente em uma democracia? Será que as ideias e os anseios de todos, absolutamente todos, são levados em consideração? A resposta: de jeito nenhum. Não é segredo para ninguém que muita gente é ignorada nos projetos políticos. Mas ainda assim essa ideia de “democracia” ainda é cultuada em grande parte do mundo – imagino eu.

E qual seria a razão disso? Acredito eu que haja várias. No Brasil, talvez seja pelo fato de, depois de mais de vinte anos de um regime militar ditatorial, a ideia de eleições diretas proporcionar para muita gente a sensação de liberdade. E talvez seja isso mesmo. Ou talvez não. Não sei explicar ao certo. São apenas ideias embrionárias, mas vamos em frente. O fato de muita gente poder escolher diretamente o seu representante, gera um conforto enorme, as pessoas sentem que têm algum valor.

Mas, e por que isso não seria uma democracia? Simples. Para mim (e essa é uma ideia recente) não há democracia sem uma anarquia individual. E o que seria essa “anarquia individual”? Seria uma pessoa sem nada nem ninguém a controlando. Ela seria livre para tomar suas próprias decisões, fazer suas próprias escolhas. Além disso, cada pessoa teria suas próprias ideias, semelhantes umas às outras ou não. É óbvio que isso implica também em responsabilidades. E onde estaria o problema? A “democracia” valoriza o CONJUNTO, massacrando as particularidades de cada um. Isso sem contar os que ficam fora desse conjunto.

Enfim, essa é a minha ideia de governo democrático, um governo que torne cada cidadão autônomo.